Sábado, Janeiro 05, 2008

Os comentários encontram-se agora fechados. Obrigado a todos os que aqui passaram e deixaram as suas palavras. Qualquer comentário pode ser feito através do email disponível no meu perfil.

Adeus e até uma próxima altura.


Terça-feira, Janeiro 01, 2008

(Quase) 3 anos de "O Meu Nada"

Hoje vou aqui deixar um agradecimento aos meus leitores.

Tenho tantas pessoas a quem agradecer a existência e permanência deste blogue que não posso, de boa consciência, tentar enumerar todas pois sofreria de remorsos indescritíveis se me esquecesse de alguém. Por isso agradeço a todos. Todos os que alguma vez aqui leram as minhas palavras. Todos os que alguma vez aqui as sentiram. Todos os que alguma vez aqui as comentaram, todos os que me encorajaram e motivaram durante todo este tempo. Sem vocês não seria ninguém. Sem as vossas respostas, comentários, apoio, elogios, preocupações – sem tudo isso – seria nada. Menos do que este nada.

Planeava continuar a deixar aqui textos e poemas até 21 de Fevereiro – data em que este blogue faria três anos – mas seriam textos que já me foram tudo e agora não têm importância. Existem mas estão fora de tempo, deste tempo. Não quero prolongar a ideia de um sentimento ou de uma vontade que já não me invade, nem quero continuar a escrever versos que, apesar de todos os vossos comentários calorosos, sempre me pareceram na sua maioria juvenis mesmo que fossem honestos em relação ao que sentia. Partilhá-los, mesmo sabendo que seriam bem recebidos, seria um gesto no qual eu já não me encontraria.

E tudo isto é uma despedida inevitável e irreversível. Todas as coisas caminham para um fim certo e este blogue não é excepção a essa regra. Esta viagem ao crepúsculo das relações e das emoções acabou, e este diário de bordo não tem mais o que contar. Chorar quem não nos chora, amar quem não nos ama, escrever o que já não há para ser dito, são coisas que já deixaram de encaixar no meu coração. E porque eu próprio cheguei a um fim, este blogue chega ao seu.

Não quero com isto dizer que vou deixar de escrever. Mas não sei se voltarei a estes espaços. Se o fizer talvez um dia apareça noutro sítio e se o fizer prometo encontrar maneira de vos levar até ele. Ou talvez nem volte aos blogues. Por agora, o mais importante é encontrar em mim tudo o que deixei partir ou que deixei morrer. Talvez encontrar amor. Talvez encontrar confiança, partilha e amizade em quem as sabe – e quer – dar. Talvez não rejeitá-las quando me forem oferecidas. As palavras podem vir depois.

Estes foram os (quase) três anos do ‘O Meu Nada’. Um obrigado muito sincero e enternecido por terem estado desse lado.



“Amanhã procuro o fôlego
de um derradeiro sentir.
Ser o alvo que a seta inevitável
do desejo procura.
Acordar na breve doçura
das manhãs que procuram conforto
nas épocas de mudança;
e cair nos braços do horizonte
onde as rosas do lamento
se fecham na eufonia do sono.”



~”Eufonia”, 2007



“São pássaros, amor, estes olhos
avulsos na ferida aberta do céu
que bebem dos afluentes do teu desejo.

São pássaros, amor, estes olhos
que caiem desabridos a teus pés
à espera que governes o meu mundo.

São pássaros, amor, estes olhos
que levam no enturvecer das lágrimas
um mar de palavras que não te sei dizer.”



~”Pássaros”, 2007



~Diogo Ribeiro.

Domingo, Dezembro 30, 2007

Sobre o projecto 'Baladas da Morte'

O projecto ‘Baladas de Morte’ acaba aqui. Antes de falar um pouco sobre ele, queria só chamar à atenção de quem costuma seguir este blogue para um comunicado importante que vou fazer ainda esta semana. Posto isto:

Sobre o projecto. Originalmente escrito em 2006 e espalhado por um total de mais de 30 textos, demorei um ano até encontrar a vontade e a inspiração para acabar de escrever, corrigir e estruturar todos eles, e de reduzir todos os acontecimentos a uns meros 12 textos para que pudessem ser apresentados três vezes por semana, durante um mês. A primeira ideia para o projecto seria, se tudo corresse bem, aliar música aos textos mas na minha mente – limitada, admito – só haveriam três maneiras de o conseguir: gravar música que acompanhasse os textos, conseguir através de intervenção divina que algum artista musical se interessasse pelo projecto, ou gravar num registo mais simples e publicá-los no blogue.

Então, o que aconteceu?

Dificuldades. Gravar música era um obstáculo considerável dado a minha falta de conhecimento musical e de material para criar sonoridades que fizessem justiça aos textos. Conseguir a atenção de algum artista era ainda mais complicado e além do mais, convém admitir que a) nenhum dos meus textos seria bom o suficiente para despertar o desejo de os narrar a algum artista, e b) provavelmente só deixaria alguém como o Adolfo Luxúria Canibal narrar estas histórias numa espécie de álbum conceptual, e não há mentira nenhuma ao dizer que ele teria coisas mais importantes com que se preocupar.

Já a simples gravação caseira envolveria a narração dos textos e disponibilizá-los como ficheiros de áudio para permitir ‘download’ e posterior audição, mas devido aos compromissos pessoais de muitas das pessoas a quem estendi o convite – e a imensos problemas técnicos que surgiram à última hora e que me impossibilitaram de gerir qualquer material de som – o projecto manteve-se apenas na vertente da escrita, e exclusivamente da minha criação (nenhum dos convidados tinha disponibilidade para contribuir com textos para o projecto). Como tal, muitas das histórias foram deixadas de parte porque simplesmente tornariam o conjunto denso demais se fossem apresentados apenas como texto.

O que ficou por contar. Por contar nestes textos ficaram as histórias de muitos personagens e situações, como o Homem Cinzento (num registo humorístico baseado nos crimes de Albert Fish) ou o Malaquias (o qual é mencionado brevemente num dos textos). Malaquias, em particular, teria uma balada inteira dedicada a ele e contaria como foi julgado e condenado à prisão mas que, durante os acontecimentos das baladas, voltaria à vila para semear o terror. Vulgar (“Malaquias já tinha saudades/dos tempos em que andava pela vila/armado de uma boa tusa/atrás desta ou daquela rapariga”), brutal, mas não inteiramente desprovido de algumas características redentoras, a introdução de Malaquias seria feita através de uma espécie de rima de infantário que usava o personagem como um papão para assustar crianças, seguida de um registo contado em primeira pessoa pelo próprio bandido.

Exposição. Os textos têm um conceito por detrás deles, de que não há verdadeiramente inocentes ou culpados, de que a escuridão se esconde em qualquer pessoa e que pode manifestar-se a qualquer altura, e de que o sobrenatural não só existe mas que influencia muito do que nos rodeia, e também de redenção. Face à ausência de uma introdução mais vasta e de certas intermissões, é possível que não tenha conseguido dar a entender algumas das relações aqui apresentadas. Por isso esta é a minha tentativa de desmistificar um pouco os textos.

"PRÓLOGO": indica que a acção decorre numa pequena vila, algures, num tempo indeterminado, e que uma “tempestadade de traições” está prestes a surgir.

"BARQUEIRO": apresenta um homem, cujo nome nunca aprendemos, que persegue uma mulher até à beira de um rio e assassina-a impiedosamente na presença de um barqueiro misterioso. Sem grandes surpresas, o barqueiro é suposto representar o personagem mitológico que conduzia as almas através do rio Hades. O facto de a mulher não ter nada para oferecer é suposto simbolizar, neste caso, alguém que não conseguia pagar uma travessia segura, ou que queria pagar pelo que fez mas que não podia fazê-lo de algum modo.

"MADRUGADA": conta que a mulher foi encontrada morta e que o homem perturbado já vai longe, que agora se refugia numa mansão velha.

"A VELHA MANSÃO": aqui somos introduzidos parcialmente ao “drama de espíritos inquietos” e aos “prisioneiros do passado” mencionados no Prólogo, onde vemos fantasmas viverem uma situação (ou provavelmente reviverem, dado que o assassino do texto anterior está na mansão e isto lhe é mostrado; ele talvez não tenha sido o primeiro a presenciar isto) que lhes causou grande sofrimento e ódio e que tentam fazer com que outros partilhem “da sede de vingança” que eles têm. O homem fora influenciado pelos espíritos e sentiu ser chamado por eles.

"O COVEIRO": apenas conta a história de Alves, o coveiro que a dada altura enlouquece e queima a igreja da vila. Na versão original do texto isto teria dado vazão a que a sua loucura o tivesse feito negligenciar o seu trabalho, deixando que alguns mortos (quase todos eles criminosos ou almas torturadas) se erguessem das suas campas e voltassem à vila. Apesar de isto não ser mencionado directamente, não é difícil fazer esse raciocínio dado o que se segue.

"VIOLETA LEE": conta a história de um homem que se viu enganado por uma mulher chamada Violeta Lee, sugerindo que ela se aproveitou dele. Apesar de não mencionado, este homem é o assassino do BARQUEIRO e a Violeta Lee é a mulher que é inicialmente morta nesse mesmo poema – não tão inocente (nem tão culpada) quanto se pensava.

"LAMENTAÇÃO A UMA MEDEIA": um homem olha para o caos que reina na vila, em particular para a igreja em chamas (“O calor das chamas está a queimar todos os pecadores/e o ar torna-se pesado com as cinzas dos seus horrores.”). O cadáver vestido de noiva não tem uma origem específica. Não seria improvável que ele a tentasse levar para a igreja numa tentativa de consumar o casamento. Se ele foi levado à loucura por si próprio – ou seja, se matou a mulher e ali a manteve – ou se por ela – se considerarmos a possibilidade de ela ser um dos horrores deixados à solta pelo coveiro – é algo que prefiro deixar à consideração dos leitores, assim como as ramificações inerentes a chamar de ‘medeia’ a mulher na sala.

"É SÓ O VENTO": uma história simples e curta, sem grande mestria ou técnica, que conta uma mãe também ela influenciada pelos acontecimentos na vila. No primeira versão do projecto, a criança teria escapado ao Homem Cinzento apenas para sucumbir à loucura da mãe. Note-se que a arma que a mulher usa para cometer o crime e o nome de um dos fantasmas na mansão sugere uma relação entre ambos. A salientar também a menção do coveiro, sem dúvida enlouquecido e agora mais uma alma atormentada a vaguear pelos bosques.

"AO LONGE, OS LÍRIOS NO VALE" e "UMA NOITE DE NOVEMBRO": histórias sem nenhuma ligação, apenas servem para mostrar outras pessoas e outros crimes. Não há relação directa com os espíritos da mansão se bem que nada impede essa possiblidade. Vingança, amores falhados, o poder da dúvida sobre quem a sente e sobre quem nada suspeitava.

"ESTRANHO AMOR": revela o destino final e fatal do assassino da Violeta Lee, que julga ver a imagem dela e acaba por persegui-la no rio, até morrer. Quando descobriu os espíritos na mansão e se apercebeu do que lhe fizeram, o arrependimento do que fizera levou ao seu fim, mesmo que a sua própria centelha de vingança tivesse sido o que atraíu os espíritos em primeiro lugar.

"EPÍLOGO": revela basicamente tudo o que originou os acontecimentos. Os fantasmas encontraram no “passado atormentado” do homem um espírito conturbado como eles e o qual podiam usar para os seus propósitos. Influenciaram a Violeta Lee até que ela enganasse o homem, e o desgosto do homem foi intensificado até se tornar raiva, até procurar a Violeta para a assassinar. Mas ambos tinham uma culpa inicial - ela, apesar de gostar do homem não lhe tinha amor e explorava-o até certo ponto; ele, de não querer perdoar a partida dela e procurar uma qualquer forma de vingança.

Mais tarde, os fantasmas pegaram na culpa da Violeta e projectaram a forma do barqueiro, no que seria uma representação fantasmagórica da sua culpa, culpa da qual não conseguia escapar. A recusa do barqueiro é na verdade a própria mente da Violeta a dizer-lhe que não pode escapar do que fez, mas o texto é vago o suficiente para sugerir que era apenas um homem.

A influência dos espíritos chegou não só até ao homem mas a outras personagens na vila, que mostraram o que de pior havia em si ou o que se escondia nas suas vidas - o coveiro, a mulher na casa que fora a esposa do Zé Naifas, e por aí fora. Quando o homem se apercebeu do que fez, o arrependimento levou-o a acabar com a própria vida, vendo no fantasma de Violeta alguma redenção mas também culpa. Com todas estas vidas agora destruídas para sempre, e com a morte do homem que de certo modo ajudou os fantasmas a libertarem-se, tudo acabou. Ou talvez não, dado que a sede de vingança que eles tinham era claramente contra a vila e os seus habitantes, por razões não mencionadas e que mais uma vez, prefiro deixar à vossa imaginação.

Agradecimentos. Gostaria de agradecer especialmente ao Pedro Melo pelo apoio e encorajamento. Gostaria de agradecer também às seguintes pessoas pelo apoio e pelo interesse mostrado no projecto: Vivis (Quotidiano), Sophia (Egos de Sophia), Nilson Barcelli (NimbyPolis), Musalia (Moriana), Menina Marota (Menina Marota), e ao caro Luís Gaspar (Estúdio Raposa).



Espero que tenham gostado.


~Diogo Ribeiro.

Sábado, Dezembro 29, 2007

Prémio: É um Blog Muito Bom Sim Senhora!




Os meus agradecimentos a quem me premiou:

Mais uma vez, a imparável Pekenina do A Força de uma Pipoca.


Não sei bem como reagir, considerando que não faço segredo de raramente apreciar a minha própria escrita. Apesar disso, agradeço o prémio, e fico na expectativa de descobrir se o próximo me vai elevar a proporções astronómicas ou vai ser na verdade o muito galardoado "Não, Estávamos a Brincar - Afinal Até é Fraquito".

Como o prémio anterior, este também requer que eu escolha outros blogues para atribuir o prémio. Trabalho difícil, porque alguns dos que mais visito ou já são excepcionais e um prémio destes não seria importante (duvido que o Nuno Júdice recebesse este prémio emocionado depois de receber os mais importantes prémios de poesia portugueses, por exemplo) ou não permitem comentários e os seus autores não comunicam com os seus leitores de modo algum. Fica aqui então a minha selecção, dentro dos possíveis e sem ordem de preferência:


Moriana
NimbyPOLIS
Poesia Portuguesa
Blue Molleskin
Branco e Preto

e para finalizar, dois a quem já tinha atribuído o prémio anterior porque sim, são mesmo assim tão bons:

Olhar em Tons de Maresia
O Sítio do Poema


Eis as regras do desafio:

1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que considerem serem bons, entende-se como bom os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários.

2. Só e somente se recebeu o “Diz que até não é um mau blog”, deve escrever um post:

- Indicando a pessoa que lhe deu o prémio com um link para o respectivo blog;

- A tag do prémio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prémio.

3. Deve exibir orgulhosamente a tag do prémio no seu blog, de preferência com um link para o post em que fala dele.

4. (Opcional) Se quiser fazer publicidade ao blogger que teve a ideia de inventar este prémio, ou seja – Skynet - pode fazê-lo no post). Neste caso, coloquei um link na imagem.

Regras 2 – é um blog muito bom sim senhora! Não há regras, excepto linkar a imagem ao meu blog (se vos apetecer), de resto a regra de escolher o ou os blog(s) fica à responsabilidade de cada um.


Para finalizar, agradeço mais uma vez e espero que os autores dos outros blogues aceitem o prémio. Pode não ser um reconhecimento de nível literário mas pelo menos indica que a vossa escrita tocou em alguém. E penso que isso devia ser aquilo a que todos os escritores deveriam almejar.



~Diogo Ribeiro.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

[Epílogo]

E então, a calma.


Punhais de mágoa esperam nas sombras
onde malícias grotescas, carícias dantescas,
versos febris num outono viváceo,
foram uma intensa revolução de almas possuídas.

Para o simples observador este vento é indecifrável;
para os que conhecem a história,
estes gritos formidáveis de coisas diabólicas
que por aqui passaram permanecem
nos risos de crianças que ecoam no frio
e trazem no empalidecer da bruma matinal
a certeza de que tudo isto foi real.

Desejos sombrios e espíritos vingativos
sentiram a fome de um coração traído;
descobriram o passado atormentado
de alguém cujo amor foi uma flor negra
que o embalou nas florestas da melancolia.
A fome desesperada por retribuição divina
acordou todos os fantasmas que a vila enterrou
no seu passado atormentado e sombrio:
um a um, todos os seus horrores despertaram
e caminharam de novo pelas ruas e vielas.

Os cadáveres de outrora eram pacientes
e sabiam manipular as vidas dos inocentes.
Forjaram culpa em formas de barqueiro,
iludiram bons corações, fingiram razões.
Homens e mulheres, crianças e velhos,
todos confrontados com tenebrosos pesadelos.
Criaram traição e dúvida, mal-estar e mal-dizer;
trouxeram angústias e arrependimentos,
fizeram dos homens marionetas da sua ira.

Só o arrependimento do assassino calou a fúria.

Mas na velha mansão ainda habitava a loucura.

E o silêncio convulsivo dos espíritos
voltaria a pedir vingança.

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Estranho Amor

Nunca viu o orvalho fazer a flor,
nem o vácuo a justificar a estrela,
nem as atrocidades que apareciam nas notícias.
Mas todas as palavras perdidas
na névoa do que ficou por dizer
eram o seu maior horror quando amanhecia.

E justificava
"Apesar de os amantes morrerem o amor não morre com eles"

Nunca chegou a dizer aquele punhado de palavras
a partir das janelas do seu arrependimento.
Mas não era justo arder na memória de um amor
que tinha sido alimentado a caridade e mentira.

E murmurava
"Apesar de os amantes morrerem o amor não morre com eles"

Um dia uma miragem improvável sorriu-lhe ao vento
e disse que esperava por ele no fundo do rio.
Encheu as algibeiras com pedras, cada uma a fazer a vez
de uma mágoa por contar
e caminhou água adentro até já não sentir o frio.

O seu último pensamento
"Apesar de os amantes morrerem o amor não morre com eles"

A manhã escureceu na curva do céu e calou o lamento dos sinos.
A vila acalmou, as ervas altas pediram ao vento para cantar a balada
do forasteiro que se afogara nas águas negras, só e desconhecido.
Os mirones da desgraça alheia comentavam entre si:


“O amor é fodido.”

Domingo, Dezembro 23, 2007

Uma Noite de Novembro

I. (mulher)

fica comigo esta noite, pedi-te eu,
fora de tempo e fora de lugar
pois não tenho mais ninguém
nesta vida trémula e maquinal
a quem mais me queira entregar

II. (homem)

fico contigo porque me disseste
que não querias sentir
a sombra estéril do desencanto
soltar traços de dor
na seiva dos versos da saudade

III. (mulher)

fica comigo, não fujas de mim;
não devemos correr soltos e amargos
como crianças à beira do precipício
de perfis oxidados
na perplexidade das palavras
que nos morrem atrás dos olhos

IV. (homem)

fico aqui porque a ti pertenço,
mergulhado no afecto louco
que cresce na garganta do ser;
não quero mais o veneno da idade
a amanhecer na violência
dos nossos corações partidos

V. (mulher)

oh, os sonhos que podíamos ter tido
mas as sílabas indefesas
dos segredos clandestinos
consomem tudo na alba da traição

e eis que tudo morre
tudo se apaga
onde a cicatriz da confiança
sangra na faca da incerteza

nesta noite não encontrei razão
para contigo ser feliz
agora abandono o teu corpo sem vida
com o meu nome nas tuas pálpebras
e a sorrir para mim

Prémio: Dizem Que Até Não É Um Mau Blog











Antes de mais, imagino que este prémio me deixa entre as categorias “Isso É Muito Mau Por Isso É Melhor Desistires” (que quase ganhei o ano passado) e “Podia Ser Pior Mas Toma Lá Qualquer Coisa Para Não Te Sentires Mal”. Ou talvez não. Em qualquer dos casos agradeço o prémio e a quem me atribuiu dito prémio:

Pekenina, do blogue A Força de Uma Pipoca.

A tarefa agora é a seguinte:

1.º Indicar quem foi que atribuiu o prémio (acima);
2.º Atribuir o prémio a 7 blogues que considere que até nem são maus blogs;
3.º Fazer referência ao criador deste prémio (link na imagem)

Não sei se será justo pois há muitos blogues que não conheço e além disso, nunca achei que o meu blogue tivesse grande projecção - ou projecção suficiente - para que as minhas opiniões ou escrita tivessem algum impacto. De qualquer maneira, entrego o prémio a estes blogues e aos seus respectivos criadores, sem ordem de preferência:


1. A Minha Nuvem
2. Egos de Sophia
3. As Velas Ardem Sempre Até ao Fim
4. Cartas, Músicas e Poemas
5. A Imitação dos Dias
6. O Sítio do Poema
7. Olhar em Tons de Maresia

Gosto muito de todos estes blogues e penso que merecem mais destaque do que aquele que recebem. Por isso, cumprimentos aos vencedores.

~Diogo Ribeiro.

Sábado, Dezembro 22, 2007

Desafio – O Meme da página 161

A Poesia Portuguesa quis responder a um desafio proposto originalmente pela Júlia Moura Lopes, do blogue O Privilégio dos Caminhos, e propôs um desafio a vários outros blogues no seu canto virtual, um dos quais foi ‘O Meu Nada’, pelo qual agradeço muito a lembrança. As regras são:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª) Abrir na página 161
3ª) Procurar a 5ª frase completa
4ª) Postar essa frase no seu blog
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Ao meu lado tenho um livro de Sylvia Plath, intitulado “The Bell Jar”. Como prometido, aqui fica a resposta ao desafio com a frase na página 161, em momento de angústia da protagonista:


“I laid my face to the smooth face of the marble and howled my loss into the cold salt rain.”



O que não seria muito diferente do que tenho feito nos últimos tempos. Fica agora o desafio lançado a outros 5 blogues:


Moriana
NimbyPOLIS
Quotidiano
Egos de Sophia
Cartas, Músicas e Poemas


~Diogo Ribeiro.

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Ao longe, os lírios no vale

Os corvos carregam fragmentos
de histórias nos bicos negros.
Voam baixo, perigosamente baixo
rente às vidas corriqueiras dos estranhos
de mente incerta e corações grotescos.

Todos os meus sonhos foram feitos
enquanto me olhava ao espelho.
E se me lembrava dos meus irmãos
sorria e afastava as lágrimas
como os meus pais me afastaram.

O amor costumava estar à sombra
desta árvore de fruto,
na qual agora só nascem enforcados
que pagam por todos os seus crimes.
E foi aqui que tu me encontraste,
desamparada e à beira do fim.

Agora tenho uma casa e filhos,
nova vida e até alguns poemas.
A ti devo agradecer estas dádivas.
Mas estou sozinha em todo este luxo.
Amadureci a odiar os meus filhos,
envelheci a imaginar-te outra pessoa.

E aqui à beira desta árvore,
tudo isto te devo confessar.

Por isso, vem até mim.
Vem ser levado pela minha voz
que apesar de tudo ainda é doce.

Quando te dobras para me abraçar,
tão pequena na minha figura fria
ficas a saber o meu nome e o nome
daquele que acusaste falsamente
e enforcaste nesta árvore.

O meu único amor mataste,
o teu único amor acabaste de perder.
Aqui acaba a tua história
enquanto sentes a corda que o matou
extinguir-te os pulmões.

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

É só o vento

É só o vento, querida,
e nada mais que ouves
quando olhas pela janela.
É só o vento, querida,
e não um pássaro qualquer
a bater no vidro da tua janela
na esperança de encontrar
um lugar perto da lareira.

É só o vento, querida,
e não algo antigo e mau
que vês por detrás das árvores.
É só o vento, querida,
e não os olhos do coveiro
que julgas rubros no seu brilho
através dos campos de trigo.

É só o vento, querida,
e não a cadeira da avó.
Sabes que os pulmões dela
cresceram como as árvores
e foram largando as folhas
ao vento da velhice.
É só o vento, querida,
e não os sussuros da tua avó.

É só o vento, querida,
e não todas as mãos estranhas
que afastam as cortinas
das casas assombradas.
É só o vento, querida,
e não as papoilas silenciosas
que se calam na mudez da neve.

É só o vento, querida,
e o estertor da madeira
quando ouves os meus passos calcarem
esta casa onde não mora
mais ninguém a não sermos nós.

É só o vento, querida,
e a tua mãe que está aqui.
É só o vento, querida,
e esta minha navalha
que olhas tão assustada
tão assustada quanto ela olha para ti.

“És feliz? Nunca pensaste em partir?”

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Lamentação a uma Medeia

“Eu vejo o teu ar de espanto,
a rigidez do teu corpo sentado ao meu lado.
O que está lá fora perturba-te, amor?
O calor das chamas está a queimar todos os pecadores
e o ar torna-se pesado com as cinzas dos seus horrores.
Foi isto que sonhámos para nós? Foi isto que nos quebrou?
O que está lá fora incomoda-te, amor?

Eu sei que este mundo já te metia medo
mesmo antes da idade do consentimento.
Mas eu prometi proteger-te de todos os predadores
e para sempre apagá-los nos teus temores.
Mesmo quando o horizonte já se esvaíu de todas as promessas
no centro da nossa agonia dolorosa e libertadora.
O que está lá fora dói-te, amor?

Eu sei, eu sei.
Não suportas o tormento e o cheiro a morte.
Nem as flores do mal que crescem à nossa volta.
As falácias de manhãs sinistras, os sentimentos contrariados,
os olhares trocados, a morte de tudo o que amamos um no outro.
Mas lembra-te, amor, a crueldade é um sinal de inteligência
e foi assim que Deus nos distinguiu dos outros animais.
É nela que sabemos o que esperar um do outro.
O meu coração assusta-te, amor?

Eu vivi através de ti sem saber que o fazia.
Fui teu porque não soube ser de mais ninguém.
Amei-te porque não sei amar sozinho,
porque não encontro razões para ser amado.
E essa é a minha fraqueza.

Se fosses outra pessoa eu conseguia viver sem ti
mas Ele tinha outros planos quando te criou.
Só que as chamas, amor, as chamas lá fora
queimam impediosamente tudo o que construímos.
Nunca vamos sair vivos disto de qualquer maneira.

Dá-me a tua mão e vamos enfrentar o que resta deste estranho mundo.”



(Do outro lado da sala
o cadáver vestido de noiva
não dizia nada)

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Violeta Lee

E há palavras delicadas no étér
há ondas revoltadas no mar encantado
mas nada conseguia explicar
o que fez a pequena e doce Violeta Lee
deixar de respirar.

É verdade, rapazes e raparigas,
crentes e doentes e serpentes;
mulheres da noite, homens de azar,
pobres velhos e marinheiros no mar:

Há horrores na alma do homem
que todos tentam afastar
mas ninguém podia acreditar
que a pequena e doce Violeta Lee
deixara de respirar.

Há um sítio na escuridão
à beira desta cidade, Senhor,
perto da casa do meu pai
onde o fogo das refinarias
nunca dormia.

Há tanta esperança, senhor,
há tanto medo
de que as lágrimas do mundo
nos queimem as entranhas.

Mas nada conseguia explicar
como a pequena e doce Violeta Lee
deixara de respirar.

Nesse sítio onde o rio negro
pulsava inquieto nas veias da noite,
ela ouviu vozes de criança
numa floresta de silêncios
e sentiu como a razão perdeu
tempo nos seus gritos.

Há colisões frontais
onde as ondas de rádio
nos dizem como tudo acaba
em noites de alcatrão negro
e preconceitos de cidade pequena.

Há tanta esperança, senhor,
há tanto medo
que esta história de violência
nos separe para sempre.

Mas nada conseguia explicar
como a pequena e doce Violeta Lee
deixara de respirar.

“Corações puros não devem crescer maliciosos”
e “a quem não se ama não se deve dar esperança”
sempre me disse o meu pai.
E o Senhor é minha testemunha
de que foi essa a lição que eu quis ensinar
à pequena e doce Violeta Lee
quando ela deixou de respirar.

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

O Coveiro

Alves era honesto e trabalhador.
Tinha chegado do estrangeiro e conheceu a sua mulher
durante o fogo de artifício. Foi assim que decidiu ficar naquele sítio.
Usava óculos estranhos e alguns chamavam-lhe insecto instrospectivo,
mas nunca levou a mal e até gracejava com o título.

Tinha dedos carnudos e trabalhava no cemitério
a certificar-se que os que estavam lá fora não entravam
e os que estavam lá dentro não saíam.
Chegava a casa todos os dias com a pá às costas
e flores tiradas das campas para oferecer à mulher.
Ao jantar recitava algumas elegias que vira na sua vigília.

Uma manhã acordou alterado.
Via-se no seu olhar um homem no limite, perdido e cansado.
E dizia a todos que a vila tinha cores que ninguém via -
tudo o que era preciso era um fósforo e alguma gasolina.
Caminhou até à igreja durante a hora da missa.
Cuidadosamente bloqueou as saídas e incendiou tudo.

Ficou no meio da rua a ver a vila a ganhar vida.
Nunca pensou que o vento e o fogo se dessem tão bem.
E agora podia voltar para casa tranquilo.


Nunca mais ia acordar com a porra dos sinos
às seis da manhã todos os Sábados e Domingos.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

A Velha Mansão

Na velha mansão habitavam os cadáveres de outrora.
A porta da sala, entreaberta, descobria o enredo:
os mortos jogavam um jogo de azar entre ódios e esgares.
E o silêncio convulsivo dos espíritos pedia vingança.

Na mão direita o Jack dos Naipes mostrou as suas cartas
e o Barnabé uivou trapaça! em acusação aguda.
O metal frio à cintura tornou-se um crescendo de raiva
e todos na mesa tinham como alvo o jogador ao seu lado.

Furou-se a carne pútrida, cortaram-se os ossos encardidos
num rodopio alucinado de gemidos e ameaças surdas.
Facas cortavam o éter e as balas caíam como chuva.
E o silêncio convulsivo dos espíritos pedia vingança.

Jack dos Naipes morreu à procura das suas pernas.
Barnabé perdeu os dois olhos mas dizia ter visto tudo.
Já o Jamantas só teve tempo de soltar um grito
porque o Zé Naifas sempre teve uma paixão por costelas.

Embriagados pela sede de sangue repetiram a antiga chacina
que não vinha mencionada em nenhum livro de história.
A porta da sala, entreaberta, descobria o enredo:
a vingança ardeu até só restarem as cinzas do esquecimento.

Mas o silêncio convulsivo dos espíritos ainda pedia vingança.
E outros partilhariam da sede de matança.

Sábado, Dezembro 01, 2007

Madrugada

A madrugada dissolveu-se no azul profundo
de neblina matinal e árvores moribundas
num esquisso botânico de sombras e doçura.

No leito do rio
encontraram-na vestida para a ocasião:
salpicos de roxo hematoma
sobre um corpo de madre pérola
arrastado pelos pulsos
e desfeito pelas navalhas.

Ao longe,
um coração selvagem procura refúgio
na paisagem silenciosa do crime
que a mansão antiga lhe oferece.

O Barqueiro

A remar pelo rio abaixo vinha um barqueiro
com olhos perdidos no intervalo do tempo
uma mulher que passava
perguntou-lhe quem era

"Sou apenas um passageiro destas correntes marítimas
onde os nenúfares estão cheios
de significados negros e malícias"

"Viste alguma coisa horrível nessa escuridão espessa?"
o barqueiro indagou

"Vi a morte nas árvores nuas!
Vi a navalha que me persegue na palidez da lua!
Sou perseguida, preciso da tua ajuda!"

a mulher ripostou

"Não pertences ao meu mundo
mas se tiveres uma moeda de ouro
levo-te através deste rio fundo."

sugeriu ele

"Não tenho nada para te oferecer
a não ser o meu fôlego antes de morrer!"

protestou ela

Da escuridão da floresta surge então um homem
paciente no seu tempo e propósito

"Não fujas da minha mão justa,
todos temos que enterrar os nossos pecados."

O barqueiro continuou o seu caminho
e no minuto vermelho nasceu a lâmina
de encontro à mulher

“Oh deus, o que me fizeste
que nem as bocas tardias dos corvos
conseguem esconder o seu horror?”

E na noite apenas ouviu como resposta
o seu próprio grito ensanguentado

[Prólogo]

o corvo do desespero esvoaçava na noite
deslizando com leveza sobre a floresta
onde as árvores escandalosamente rubras
traíam um drama feito de espíritos inquietos
e intenções assassinas

algo se agitava nas entranhas da rotina
e os habitantes da vila não desconfiavam
de que algo faminto andava à solta

a tempestade das traições acorda
sobre a cidade insuspeita
e os prisioneiros do passado
gritam uma terrível balada
onde a angústia dos versos se perde
e o assombro dos passos se esvai

no fim das lágrimas
no fim das exaltações
no fim das noites
no fim dos múrmurios
através dos séculos

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Projecto 'Baladas de Morte'

E agora para algo completamente diferente.

Durante o mês de Dezembro este blogue vai dar lugar ao projecto ‘Baladas de Morte’, um projecto paralelo ao que aqui costumo fazer e dedicado às ‘murder ballads’, um género de narrativa que teve raízes na Escandinávia e Reino Unido medievais e que mais tarde viria a ser parte incontornável da música folk norte-americana. Este tipo de balada visa a criação de música popular baseada em homicídios – quer eles sejam baseados em factos verídicos ou lendas – e revela os seus intervenientes e temas de muitas formas. Uma narrativa pode descrever os planos do assassino, outra pode descrever a angústia da vítima ou até descrever ambos e fazê-lo sobre variadas perspectivas, desde o simples crime passional até a vinganças com influência do sobrenatural.

Por algumas razões de força maior vejo-me impossibilitado de apresentar este projecto usando sonoridades ou leituras dos textos, como inicialmente queria, e portanto apenas me posso remeter ao uso de textos. Já a partir da próxima semana, todas as histórias serão publicadas a cada Segunda, Quarta e Sexta-Feira, sendo o dia 31 reservado para a publicação de agradecimentos e alguns comentários sobre o projecto. Findo o mês de Dezembro, os meus textos habituais retomam ao blogue.

Dito isto, espero que apreciem os textos que aqui vou deixar.


~Diogo Ribeiro.

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Encruzilhada

Nilson Barcelli, do excelente NimbyPOLIS, desafiou-me para me ligar à ENCRUZILHADA: compor um post em prosa/conto ou poesia com o título dos últimos 10 posts, não necessariamente na mesma ordem de publicação, usando outras palavras para dar sentido ao todo. Respondi ao desafio e deixo aqui então a minha Encruzilhada - "Estas palavras, agora":


e estas palavras, agora, são um mapa
das ruas do meu desassossego;
perdidas no excerto de uma melancolia
onde se incendeia o pensamento

e estas palavras, agora, são braços
suspensos na saudade depois da sede
entre o estranho desígnio das madrugadas
e dos corpos que se fecham minguantes

e estas palavras, agora, são um crime
contra a flor vestida de noite e nevoeiro
que me sangra as mãos frias e circulares
e se inscreve, fatal, nas brumas do meu peito

e se outro te relembrar como amar, então,
estas palavras nada mais poderão ser
senão uma memória de ti, sôfrega,
num inverno de ti, numa mitologia de ti,
onde poucas palavras me conhecem;

e então estas palavras, agora e sempre,
serão loucura de amor
como se não fosse sempre assim
amar loucamente
quem em nós foi chama,
chama que não ardeu até ao fim